Modelo de McLean
Réplica do paper publicado na RBFin (2015) sobre as fontes do caixa retido pelas firmas listadas na BM&FBovespa, estendida para o período pós-2013 com dados abertos da CVM.
Réplica do modelo de fontes de caixa proposto por McLean (2011) e aplicado às firmas brasileiras por Chalhoub, Kirch & Terra (2015) na Revista Brasileira de Finanças, vol. 13, nº 3.
A equação testada é a (1) do paper original:
Variáveis de fluxo normalizadas por .
Os dados originais usavam Economática (paga). Esta replicação usa o portal aberto da CVM (Dados Abertos / DFP), disponível somente a partir de 2010 após a adoção das normas CPC.
Toda a amostra (após filtros): firmas com Ativo Total > R$ 200 mil, sem crescimento > 100% a/a, excluindo setor financeiro.
| Variável | n | Média | Desv. P. | p25 | Mediana | p75 | Média paper | Desv. paper |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Cash (nível) | 5287 | 0,0786 | 0,0832 | 0,0152 | 0,0540 | 0,1145 | 0,0900 | 0,1220 |
| ΔCash | 5287 | 0,0057 | 0,0611 | -0,0152 | 0,0004 | 0,0253 | 0,0070 | 0,0750 |
| ΔIssue (emissão de ações) | 5287 | 0,0255 | 0,1025 | -0,0041 | 0,0008 | 0,0286 | 0,0270 | 0,1060 |
| ΔDebt (endividamento) | 5287 | 0,0396 | 0,1287 | -0,0132 | 0,0172 | 0,0787 | 0,0380 | 0,1270 |
| CashFlow (op.) | 5287 | 0,0509 | 0,1314 | 0,0094 | 0,0658 | 0,1188 | 0,0380 | 0,1520 |
| Other (vendas perm.) | 5287 | -0,0020 | 0,0220 | 0,0000 | 0,0000 | 0,0000 | 0,0030 | 0,0150 |
| ln(Ativo Total) | 5287 | 21,6325 | 2,0319 | 20,4456 | 21,6878 | 22,9935 | 13,8540 | 2,1620 |
| Variável | β (meu) | t-stat | sig. | β paper | t paper | sig. paper |
|---|---|---|---|---|---|---|
| ΔIssue (emissão de ações) | 0,0994 | 8,85 | *** | 0,0870 | 6,12 | *** |
| ΔDebt (endividamento) | 0,1141 | 14,66 | *** | 0,0950 | 7,88 | *** |
| CashFlow (op.) | 0,0735 | 9,98 | *** | 0,0833 | 8,35 | *** |
| Other (vendas perm.) | 0,1117 | 2,64 | *** | 0,0414 | 0,60 | — |
| ln(Ativo Total) | 0,0004 | 0,88 | — | 0,0001 | 0,22 | — |
Como todas as variáveis de fluxo estão normalizadas por , cada β é adimensional e pode ser lido como centavos de caixa retidos por R$ 1,00 captado naquela fonte. Exemplo: βΔIssue = 0,0994 significa que, em média, para cada R$ 1,00 que a firma capta via emissão líquida de ações no ano t, aproximadamente R$ 0,10 (≈ 9,9 centavos) acabam parados no caixa ao final do mesmo ano — mantendo ΔDebt, CashFlow, Other e tamanho da firma constantes.
- ΔIssue 0,0994 *** — de cada R$ 1,00 captado via emissão líquida de ações, cerca de 9,9 centavos ficam retidos como caixa.
- ΔDebt 0,1141 *** — de cada R$ 1,00 de dívida nova líquida (CP + LP), cerca de 11,4 centavos ficam retidos como caixa.
- CashFlow 0,0735 *** — de cada R$ 1,00 de fluxo de caixa operacional (lucro líquido + D&A), cerca de 7,3 centavos ficam retidos como caixa.
- Other 0,1117 *** — de cada R$ 1,00 recebido pela venda de ativo permanente, cerca de 11,2 centavos ficam retidos. Estimativa ruidosa: 75% das firmas-ano têm Other = 0.
- ln(AT) 0,0004 — tamanho da firma (em log) não tem efeito incremental sobre o caixa retido uma vez controladas as quatro fontes acima.
Em outras palavras: o mecanismo central de McLean (2011) é que firmas não gastam imediatamente todo R$ captado — uma fração estatisticamente significativa de cada fonte permanece como caixa, consistente com motivos precaucionários (oportunidades de investimento futuras, choques de liquidez).
| ΔIssue (emissão de ações) | 0,1118 | [5,62] | *** |
| ΔDebt (endividamento) | 0,1359 | [9,20] | *** |
| CashFlow (op.) | 0,0899 | [4,91] | *** |
| Other (vendas perm.) | 0,0273 | [0,55] | |
| ln(Ativo Total) | -0,0011 | [-1,28] |
| ΔIssue (emissão de ações) | 0,0799 | [4,29] | *** |
| ΔDebt (endividamento) | 0,0883 | [6,46] | *** |
| CashFlow (op.) | 0,0625 | [4,93] | *** |
| Other (vendas perm.) | 0,1670 | [1,55] | |
| ln(Ativo Total) | 0,0020 | [1,50] |
No OLS pooled (Modelo 1 da eq. 1), todos os três coeficientes de retenção são positivos e significativos a 1% — ΔIssue, ΔDebt e CashFlow — e Assets continua não-significativo. É a mesma história qualitativa da Tabela 3 do artigo. O mecanismo de cash savings de McLean (2011) sobrevive em dados abertos da CVM, mesmo trocando Economática por DFP. Estatísticas descritivas (Cash≈0,08, ΔCash≈0,006, ΔIssue≈0,026, ΔDebt≈0,041) também ficam dentro da distribuição reportada em 2015, reforçando que o painel pós-2010 é reconhecidamente o mesmo universo de firmas listadas.
- As janelas mal se sobrepõem. Paper cobre 1995–2013; réplica cobre 2010–2025. Apenas quatro anos em comum. A janela moderna inclui ciclos da Selic pós-2015, hoarding de liquidez na COVID e retração do BNDES — regime macro materialmente diferente. Coeficientes maiores em ΔIssue/ΔDebt na réplica são consistentes com isso, mas não permitem atribuir o delta à metodologia sem fixar a janela.
- A assimetria precaucionária inverte. No paper, firmas restritas poupam mais dos recursos externos — núcleo do argumento de 2015. Na réplica, os coeficientes do grupo não restrito superam os do restrito em todas as três fontes (ΔIssue 0,112 vs. 0,080; ΔDebt 0,136 vs. 0,088; CashFlow 0,090 vs. 0,063). Dois drivers prováveis: (a) acumulação de caixa por grandes firmas pós-COVID infla o lado não-restrito; (b) o proxy por decil de Ativo Total dentro de setor-ano classifica de forma distinta em uma B3 moderna mais concentrada. Esse achado é, em si, um resultado — não uma falha do código.
- Other (0,112***) é frágil. 75% das firmas-ano são zero (p25 = mediana = p75 = 0); a significância depende de uma cauda curta de eventos de venda de ativo permanente. Tratar como ruído, não como achado.
- Assets em escala diferente. Média de ln(AT) na réplica fica em ~21,6 contra ~13,9 no paper, gap de ano-base/unidade da deflação. Coeficiente permanece ~0 nos dois, então não muda inferência — mas precisa ser harmonizado antes de qualquer tabela publicada lado-a-lado.
- R² praticamente dobra (0,06 → 0,11). Mais plausível atribuir à homogeneidade do painel pós-IFRS (CPC 26/2010 padronizou a DFP) do que a ganho metodológico. Não vender como mérito.
O mecanismo de cash savings documentado em 2015 segue operando em 2010–2025: firmas brasileiras continuam retendo parcela significativa de cada real captado via emissão, dívida ou caixa operacional. No entanto, a assimetria precaucionária entre restritas e não-restritas não se replica out-of-sample. Qualquer afirmação mais forte exige (a) reaver Economática para refazer a janela 1995–2013, ou (b) isolar o subsample 2010–2013 para separar efeito de fonte de dados de efeito de janela.


