Lição 59 — Diferenciabilidade e suavidade
Diferenciável implica contínua. Pontos de bico, cúspide, tangente vertical. Classes C^k e C^∞. Função de Weierstrass.
Used in: 2.º ano do EM avançado (cálculo) · Equiv. Math III japonês · Equiv. Leistungskurs Klasse 12 alemã
Diferenciabilidade em : a função é diferenciável em se e somente se este limite existe como número real finito. Existindo, seu valor é a derivada — a inclinação da reta tangente ao gráfico no ponto .
Rigorous notation, full derivation, hypotheses
Definições e teoremas
Diferenciabilidade num ponto
"Se existe, dizemos que é diferenciável em . Se é diferenciável em todo número em um intervalo aberto , então é diferenciável em ." — OpenStax Calculus Volume 1, §3.2
Teorema fundamental (diferenciabilidade implica continuidade)
"Se é diferenciável em , então é contínua em ." — Active Calculus, §1.7, Boelkins 2024 (Teorema 1.7.1)
Tipos de pontos de não-diferenciabilidade
Os quatro tipos principais de ponto de não-diferenciabilidade. Da esquerda: bico (derivadas laterais finitas e distintas), cúspide (derivadas laterais infinitas opostas), tangente vertical (derivada de ambos os lados), salto (função não contínua).
| Tipo | Exemplo em | O que ocorre |
|---|---|---|
| Bico (corner) | ||
| Cúspide | ||
| Tangente vertical | ||
| Descontinuidade de salto | não é contínua | |
| Oscilação sem limite | limite do quociente não existe |
Hierarquia
Exemplo: mas não (Cauchy)
Esta função é e para todo , mas . Logo — separa definitivamente as classes suave e analítica.
Função de Weierstrass
Exemplos resolvidos
Exercise list
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- Ex. 59.1ApplicationAnswer key
Seja . Calcule as derivadas laterais e pela definição. Conclua sobre diferenciabilidade em .
Show solution
Derivada lateral direita: . Derivada lateral esquerda: . Como , a derivada bilateral não existe em : bico, não diferenciável.Show step-by-step (with the why)
- Para : , então . Por quê: quando h é positivo, o valor absoluto não muda o sinal.
- Para : , então . Por quê: quando h é negativo, o valor absoluto inverte o sinal.
- . Conclusão: não diferenciável em 0 — bico.
Macete: No bico de uma função com módulo, as derivadas laterais são sempre simétricas e opostas.
- Ex. 59.2Application
Seja . Calcule e . é diferenciável em ?
Show solution
O argumento de é transladado: bico em . e . Bico em : não diferenciável. - Ex. 59.3Application
Seja . Determine usando a definição.
Show solution
. O fator extra suaviza o bico de .Show step-by-step (with the why)
- Aplique a definição: . Por quê: .
- Cancele (lembre: no limite): .
- . Portanto . Diferenciável.
Observação: O fator extra multiplica o bico de e o "lisa" — padrão geral para .
- Ex. 59.4ApplicationAnswer key
Seja . Calcule pela definição. O que a resposta indica geometricamente?
Show solution
. Quando ou : (sempre positivo). Tangente vertical — não diferenciável. Geometricamente: reta tangente fica cada vez mais vertical ao se aproximar de . - Ex. 59.5Application
Seja . Analise a diferenciabilidade em calculando as derivadas laterais pela definição.
Show solution
. Para : . Para : . Cúspide voltada para cima — derivadas laterais vão para infinitos opostos. Não diferenciável. - Ex. 59.6ApplicationAnswer key
Seja . Calcule e . é diferenciável em ?
Show solution
Para : , quociente . Para : , quociente . Derivadas laterais iguais: .Show step-by-step (with the why)
- . Por quê: ramo é .
- . Por quê: ramo é .
- Laterais iguais: . Diferenciável.
Observação: Apesar do gráfico ter forma "suave" nessa função, sempre verifique as derivadas laterais em pontos de definição por partes.
- Ex. 59.7Application
Seja para e . Verifique se é contínua em e se é diferenciável em .
Show solution
Continuidade: quando , portanto é contínua em 0. Diferenciabilidade: . Este limite não existe (oscila entre -1 e 1). Não diferenciável em 0. - Ex. 59.8Application
Seja para e . Mostre que usando o teorema do sanduíche.
Show solution
. Como (sanduíche), o limite é . Diferenciável, . - Ex. 59.9Application
Seja (função ReLU). Calcule e . é diferenciável em ?
Show solution
: para , ; para , . Derivada lateral direita: . Derivada lateral esquerda: . Diferentes: bico, não diferenciável. - Ex. 59.10Application
Seja . Em que ponto tem um bico? Verifique calculando as derivadas laterais nesse ponto.
Show solution
: para , ; para , . Em : e . Bico em . - Ex. 59.11Application
Seja para e . É contínua em ? É diferenciável em ?
Show solution
: e . Salto de -1 para 1 em : descontinuidade. Logo não diferenciável. - Ex. 59.12Application
Onde a função parte inteira é diferenciável? Onde não é? Justifique em cada caso.
Show solution
Nos inteiros, tem salto: descontinuidade, logo não diferenciável nos inteiros. Fora dos inteiros, é localmente constante, portanto nesses pontos. Diferenciável em . - Ex. 59.13Application
Seja . Calcule e pela definição do limite.
Show solution
Para : quociente diferencial em 0 é . Para : . Logo . Para : . Aplicando a definição de : . Logo . - Ex. 59.14ApplicationAnswer key
Seja se e se . Determine se é diferenciável em .
Show solution
O quociente diferencial em 0: . Se : . Se : . Em ambos os casos, o quociente vai a 0. Portanto . Diferenciável em 0. - Ex. 59.15Application
Seja . Calcule pela definição. Identifique o tipo de ponto de não-diferenciabilidade.
Show solution
. Para : . Tangente vertical. Não diferenciável. - Ex. 59.16ApplicationAnswer key
Seja para e . Mostre que é diferenciável em , mas que . Que classe máxima tem ?
Show solution
pela definição (sanduíche, pois ). Para : . O termo oscila sem limite quando . Portanto e : diferenciável mas não .Show step-by-step (with the why)
- . Por quê: definição aplicada com .
- Sanduíche: , e . Logo .
- Para , regra do produto e da cadeia: .
- não existe — oscila entre -1 e 1. Logo .
Curiosidade: Esse é o exemplo canônico de diferenciável-mas-não-: existe uma lacuna entre as classes.
- Ex. 59.17Application
Encontre e tais que seja em .
Show solution
Continuidade em 1: , portanto (I). Derivadas: e . Igualar: (II). De (I): .Show step-by-step (with the why)
- Continuidade em : , i.e., . Por quê: os dois ramos devem coincidir no ponto de junção.
- Derivada lateral esquerda: , portanto .
- Derivada lateral direita: , portanto .
- Para : . Substituindo: .
Atalho mental: Para funções por partes linear+polinômio, a equação da reta tangente à curva no ponto de junção dá o ramo linear diretamente.
- Ex. 59.18Application
Encontre tais que seja em .
Show solution
Continuidade em 1: . Derivadas: . Logo . - Ex. 59.19Application
Encontre tais que seja em .
Show solution
Continuidade em 0: . Derivadas: . Verificar: dá para , que é a tangente de em . - Ex. 59.20ApplicationAnswer key
Onde não é diferenciável? Identifique o tipo de ponto.
Show solution
: translação de para . Em : . Tangente vertical em : não diferenciável. - Ex. 59.21Application
Seja . é em ? É em ?
Show solution
Continuidade em 0: e . Contínua. Derivadas: e . Diferentes: mas não . Bico em 0. - Ex. 59.22UnderstandingAnswer key
Um polinômio cúbico pertence a qual classe ? Por que a resposta não é ?
Show solution
Todo polinômio é : derivado vezes dá constante; além disso a derivada é zero — ambas contínuas. Todas as derivadas existem e são contínuas. - Ex. 59.23Understanding
Onde tem bicos? Calcule as derivadas laterais em cada ponto para confirmar.
Show solution
: bico onde , i.e., . Em : e . Diferentes: bico em . Por simetria, bico em também. - Ex. 59.24Understanding
Um spline cúbico é formado por em e em . Quais condições em garantem que o spline total é ? Liste todas as equações.
Show solution
Para spline : (1) (continuidade da função), (2) (continuidade da primeira derivada), (3) (continuidade da segunda derivada). Três equações de compatibilidade no nó . - Ex. 59.25UnderstandingAnswer key
Seja . Em que pontos tem bicos? Esboce o argumento para os pontos .
Show solution
tem bico onde : em , . Em : derivadas laterais são e — opostos. Bicos em . - Ex. 59.26Understanding
Seja . Calcule para todo e mostre que .
Show solution
. Para : ... Na verdade, usando a regra do produto para : ; para : . Em ambos os casos . Como , é contínua e . - Ex. 59.27Application
Analise a diferenciabilidade de em todo . Em que pontos tem bicos?
Show solution
tem bico em onde muda de sinal (cruzando zero). Em todos os outros pontos, e a função é localmente , que é . Portanto: contínua em todo (), mas não diferenciável em . - Ex. 59.28Understanding
Seja . Qual é a classe de regularidade de em ? Justifique.
Show solution
Cada termo é . Soma finita de funções é . Portanto . Não é "só perto de 0" — é em todo . - Ex. 59.29ModelingAnswer key
O payoff de uma opção call europeia no vencimento é . (a) Identifique o ponto de não-diferenciabilidade. (b) Calcule e . (c) O que acontece com o Greek Delta nesse ponto?
Show solution
Payoff call: . Bico em : e . O Greek Delta tem salto de 0 para 1 em . Não diferenciável em . - Ex. 59.30Modeling
Em aprendizado de máquina, a função de ativação ReLU é . Por que o algoritmo SGD funciona mesmo ReLU não sendo diferenciável em ?
Show solution
ReLU não é diferenciável em 0, mas o conjunto tem medida de Lebesgue zero. SGD usa subgradiente (tipicamente 0 ou 1 em 0 por convenção de implementação). Na prática, o algoritmo de gradiente estocástico dificilmente vai bater exatamente em 0 com precisão de ponto flutuante; e quando bate, um subgradiente qualquer do intervalo serve para garantir convergência. - Ex. 59.31Modeling
Em engenharia estrutural, um cabo elástico com nó tem deslocamento contínuo mas inclinação com salto no nó. (a) Qual a classe de regularidade de ? (b) O que o bico no gráfico de representa fisicamente?
Show solution
Cabo com nó: deslocamento contínuo (sem rasgo físico — nenhum ponto do cabo se parte), mas (proporcional à tensão interna) tem salto no nó. Portanto mas . O bico no gráfico de deslocamento corresponde ao salto de tensão. - Ex. 59.32Modeling
Um spline cúbico natural em com nó em impõe quais condições de regularidade? Qual é a classe resultante? Por que e não ?
Show solution
Spline cúbico natural impõe continuidade de , e nos nós interiores. Nos nós de borda, (condição de spline natural — "sem curvatura nas extremidades"). Portanto no intervalo completo. - Ex. 59.33Modeling
Numa equação de onda com dado inicial descontínuo (função degrau), que regularidade se espera da solução ? Por que uma solução não existe?
Show solution
Dado inicial descontínuo (função degrau) para equação de onda: a solução é mas tem derivadas com descontinuidades propagando-se ao longo das características. A solução clássica (que requer ) não existe; necessita-se de formulação fraca (solução distribuicional). - Ex. 59.34Understanding
A recíproca de "diferenciável contínua" é verdadeira? Qual é o contraexemplo mais simples?
Show solution
A recíproca é falsa. O contraexemplo padrão: é contínua em todo mas não diferenciável em . Inclusive, a função de Weierstrass é contínua em todo e não é diferenciável em nenhum ponto. - Ex. 59.35Understanding
Seja . Qual a classe máxima de ? Calcule para todo para justificar.
Show solution
. Para : . Para : . Em ambos: . . Portanto é contínua e . - Ex. 59.36Understanding
A função de Cantor (escada do diabo) satisfaz: contínua em , , , e quase em todo ponto. Por que o Teorema Fundamental do Cálculo não se aplica?
Show solution
A função de Cantor é contínua, não-decrescente, , , e quase em todo ponto (no complemento do conjunto de Cantor, de medida 1). O TFC falha porque . O TFC com Riemann-integral requer absoluta continuidade de — a função de Cantor não é absolutamente contínua. - Ex. 59.37Challenge
Existe função contínua em que não é diferenciável em nenhum ponto? Descreva a construção principal.
Show solution
Sim. A função de Weierstrass (com e ) é contínua em todo (série uniformemente convergente, majorada por série geométrica ) e não diferenciável em nenhum ponto. Weierstrass, 1872. Hardy melhorou o critério para em 1916. - Ex. 59.38Challenge
Seja para e . Mostre que e que para todo . O que isso implica sobre a série de Taylor de em ?
Show solution
Por indução: mostra-se que para todo , usando para todo polinômio (a exponencial decai mais rápido que qualquer potência). Portanto com todos os coeficientes de Taylor em 0 iguais a zero, mas : gap definitivo entre e analítico. Esta é a função "bump" de Cauchy, fundamental para a teoria de partições da unidade. - Ex. 59.39ProofAnswer key
Demonstre: se é diferenciável em , então é contínua em .
Show solution
Seja diferenciável em . Para , escreva . Quando , o primeiro fator tende a (finito por hipótese) e o segundo tende a . Logo o produto tende a , provando . Portanto é contínua em .Show step-by-step (with the why)
- Identidade algébrica para : . Por quê: multiplicar e dividir por é válido quando .
- Por hipótese de diferenciabilidade: , que é finito.
- Trivialmente: .
- Limite do produto = produto dos limites: .
- Portanto : definição de continuidade em .
Observação: A chave é fatorar o incremento — truque algébrico simples com consequência profunda. Memorize essa prova; ela reaparece em cálculo de várias variáveis.
- Ex. 59.40Proof
Demonstre que se , então é Lipschitz em . (Dica: use o Teorema do Valor Médio e o fato de que é limitada em compacto.)
Show solution
Se , então é contínua em compacto , logo limitada: tal que para todo . Pelo Teorema do Valor Médio: para quaisquer , existe entre eles com . Portanto . Logo é Lipschitz com constante .Show step-by-step (with the why)
- implica contínua em compacto. Por quê: compacto + contínuo implica limitado (Teorema de Weierstrass para funções).
- tal que para todo .
- Pelo TVM: para algum entre e .
- . Portanto Lipschitz.
Macete: implica Lipschitz implica — a hierarquia completa fluindo para baixo.
Fontes
- Active Calculus — Boelkins, 2024 · §1.7 "Limits, Continuity, and Differentiability" · CC-BY-NC-SA. Fonte primária.
- Calculus Volume 1 — OpenStax, 2016 · §3.2 "The Derivative as a Function" · CC-BY-NC-SA.
- APEX Calculus — Hartman et al., 2024 · v5 · §2.1 "Instantaneous Rates of Change: The Derivative" · CC-BY-NC.